Praias do Rio – Um Mar de Lama – O Descaso com as Tecnologias Disponíveis – III

O atraso tecnológico brasileiro só tem aumentado ao longo das últimas décadas, intensificando-se recentemente.

Ciência e tecnologia são “conhecimentos acumulados”, usualmente patenteados, e supor que fábricas de automóveis “brasileiras” são “nacionais” só porque os componentes físicos dos veículos são fabricados aqui – ainda que com desenho e tecnologia importados – é uma simples bobagem do pensamento místico / mágico brasileiro.

Já existem, há muito, sistemas que utilizam sonares para fazer o mapeamento da topografia de fundo das plataformas continentais.  Não há informações de que o Brasil tenha concluído esse trabalho com o detalhamento necessário para reivindicar direitos plenos sobre toda a extensão de seu “mar de 200 milhas” nos termos dos acordos internacionais em vigor.  E se esse mapeamento já foi feito, não há informações sobre onde ter acesso a ele online.

Nos EUA, o acesso livre aos bancos de dados do governo – como esse – permitiu o planejamento de linhas de transmissão de alta tensão submarinas ligando um extremo da costa leste ao outro.  Aqui, o Brasil ainda anuncia a fabricação de torres de grande porte para a travessia de rios mais largos da Amazônia como um sucesso da “moderna engenharia”, quanto os rios talvez fossem o caminho mais barato e com menores impactos ambientais para esse tipo de transmissão.

Orgulhos vãos, vazios!  Orgulho do atraso!  “Tá tudo índio” – como diz uma jovem amiga.

Aos fatos!  Já é possível fazer o mapeamento do solo e de boa parte do subsolo marinho usando ecossonares de dupla frequência e outros, amplamente utilizados na indústria petroleira para sondagens sísmicas.  Então, porque esse lero-lero de colocar sistemas de GPS nas chatas que transportam resíduos contaminados dragados na Baía de Guanabara para pontos selecionados de maneira mais hipotéticas do que verdadeiramente técnicas?

Correntes superficiais ou profundas também já podem ser avaliadas com os sistemas existentes!  Então, por que o atraso – intencional ou por descaso – do INEA ao definir os pontos de “bota-fora” das imensas quantidades de resíduos contaminados resultantes das dragagens em diferentes áreas de Baía de Guanabara?  Esses instrumentos serão utilizados nas dragagens das lagoas da Barra da Tijuca?  Quem medirá os volumes dragados e as distâncias para onde serão transportados?  Os peões das “obras”?  Foram feitos mapeamentos das profundidades atuais para serem confrontados com informações posteriores às dragagens?

Na verdade, até pesquisas arqueológicas já vêm sendo feitas, há anos, sem necessidade de qualquer movimentação dos sedimentos do fundo dos oceanos.  Na costa da Grécia, equipamentos desse tipo foram utilizados para mapear ruínas de civilizações e contornos de naufrágios pré-históricos…. e a turma aqui não quer adotar tais sistemas e equipamentos para identificar qual o comportamento do material já dragado e lançado no litoral.  Onde exatamente ele foi lançado?  Que providências serão tomadas para garantir que os 4 milhões de sedimentos contaminados a serem movidos do fundo da Baía de Guanabara para algum lugar hipoteticamente seguro?

Não se trata, certamente, de uma questão de custos, considerados os imensos valores envolvidos nas próprias dragagens!  Ignorância, descaso, ou vontade de evitar maiores níveis de precisão, de segurança  e de transparência nas informações?

Com a palavra, a Promotoria de Tutela Coletiva de Meio Ambiente e o Grupo de Atuação Especializada em Meio Ambiente do Ministério Público do Rio de Janeiro!  Para evitar que esses eventos “naturais” de espuma densa e fétida ao longo de muitos quilômetros das praias cariocas se repitam… pelo menos para não assustar os turistas, já que com a população local ninguém parece se importar mesmo.

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Agora, com o Judiciário liberando a inútil dragagem das lagoas da Barra da Tijuca – inútil enquanto continuarem os massivos lançamentos de esgoto por descaso da “Nova” Cedae e do próprio Governo do Estado, haverá que celebrar, com honras e pompas, o “milagre da multiplicação das dragas”.  Aqui, vale talvez uma revisão de artigos recentes publicados neste blog.  Os R$ 600 ou R$ 700 milhões estimados para essa dragagem certamente seriam muito melhor empregados na conclusão do sistema de coleta de esgotos da região, que já se arrasta há mais de 25 anos, sem data prevista para conclusão!

 

 

 

 

 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

O que você pensa a respeito?