Energia fotovoltaica e microgeração distribuída: próximos passos

Finalmente, com décadas de atraso, instalam-se as primeiras fábricas de painéis solares fotovoltaicos no Brasil.  Com a pressa de dar a notícia e/ou com a superficialidade usual, a reportagem não diz que tecnologias serão usadas, se haverá o pagamento de royalties para os proprietários das patentes no exterior, qual a composição acionária das novas empresas, de onde virão as matérias-primas, etc.  Mas, sem dúvida, já é um avanço muito  importante.

Esse avanço será mais importante ainda se o poder público – e não apenas federal – tiver uma estratégias mais claras para uma rápida disseminação da microgeração distribuída – em contraposição às grandes centrais de geração fotovoltaica – que aumenta em muito a segurança energética das cidades e das edificações.

Há economias acessórias não não claramente definidas no Brasil quando se trata da redução das necessidades de expansão das redes de transmissão e de distribuição.  As concessionárias dos serviços de energia elétrica evidentemente não gostam muito disso, temem perder receitas de seus negócios tradicionais, mas o avanço tecnológico é inevitável.

A energia fotovoltaica ainda é cara mas diversas iniciativas podem ser tomadas para reduzir os seus custos e/ou aumentar a sua atratividade.  Entre essas iniciativas, as linhas de crédito de longo prazo com juros subsidiados – ninguém aguenta mais a goela larga dos bancos brasileiros -, a isenção de impostos por tempo determinado até que a indústria se consolide – do IPI ao ICMS -, a isenção do ICMS vendida pelo produtor à rede, o barateamento dos medidores que rodam nos dois sentidos, a atração de fabricantes de bancos de bateria de alta qualidade, o incentivo à produção de matérias-primas localmente, o treinamento de equipes de instalação com apoio do SENAC e do SESI (tipicamente, a instalação pode representar de 6 a 14% dos custos), iniciativas variadas de lançar concursos de projetos de arquitetura que incorporem a energia solar fotovoltaica, e por aí afora.

Não é preciso sequer ser muito inovador: basta pedir a cooperação técnica alemã – considerada a recente visita de Angela Merkel – que mantenha sistemas de informação em português sobre a ampla gama de iniciativas que tornaram a Alemanha num país pioneiro nesse tipo de energia.  Softwares de gestão de rede com grande número de pontos de microgeração distribuída serão extremamente úteis.

Há uma grande número de outras aplicações de painéis solares: na agricultura, para bombeamento de água para irrigação, nos trechos finais das redes de distribuição, para reforço de carga, ou mesmo sobre canais de irrigação e reservatórios de hidrelétricas para evitar a ocupação de terras com potencial agrícola e para reduzir a evaporação (experiências desse tipo vêm sendo feitas da Índia à Califórnia).  Mas, sem dúvida, o maior mercado será o de microgeração distribuída se um mínimo de políticas de incentivo fizer parte do cardápio.

Isso, é claro, se não formos falar dos mais de R$ 5 bilhões em gastos com a Conta de Consumo de Combustíveis – CCC para subsidiar os mal contabilizados custos de transporte de diesel para pequenas cidades e vilas na Amazônia que não estão conectadas à rede e usam geradores ultrapassados, de baixo rendimento.   Pelo menos se usassem anualmente parte desses recursos para implantar sistemas híbridos – diesel-solar – nessas áreas….   Mas essa máfia ninguém desmonta, apenas por falta de vontade política.

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Ufa – ainda bem que o país se livrou de Edson Lobão, que retardou a chegada dessa tecnologia o quanto pôde!

Vamos ver se o atual ministro e os secretários de estado saem do conforto de seus cargos e trabalham de maneira criativa.  E se os “ambientalistas” percebem que, com o imenso potencial da microgeração distribuída, o Brasil poderá sair da mesmice da conservação de florestas na Amazônia para reduzir as suas emissões de gases causadores de mudanças climáticas, e colaborar com metas internacionais.

Mas governadores e prefeitos não precisam ficar esperando pelo governo federal, completamente à deriva com uma crise política e econômica sem proporções, por ele provocadas.  Todos os níveis e esferas de poder podem trabalhar juntos para promover o uso de painéis solares fotovoltaicos, com os benefícios para a economia, para a segurança energética do país e para a geração de empregos – não apenas em sua fabricação, mas na produção de matérias-primas, de bancos de baterias, de equipamentos periféricos e com a criação de equipes de instalação e de manutenção.

 

Publicado por

Luiz Prado

Quando estudante de Economia, já no segundo ano da faculdade, caiu-me nas mãos o relatório Limites para o Crescimento, encomendado pelo Clube de Roma ao MIT. Para quem não sabe, o Clube de Roma era um encontro anual de dirigenes de grandes corporações para dividir mercados. No período anterior, Agnelli propôs que discutissem, também, fontes de suprimento de matérias-primas. Como não tinham as informações, encomendaram o estudo sobre o tema ao MIT. Limites para o crescimento era algo impensável na teoria econômia! - e os economistas ainda continuam medindo o mundo pelo tal crescimento do PIB! Daí para apaixonar-me por recursos naturais foi um pulo. E passei a vida trabalhando sobre o tema.

2 comentários em “Energia fotovoltaica e microgeração distribuída: próximos passos”

  1. Perfeita sua observação. Neste momento estou estudando empreender em micro geração e difundir os benefícios da mesma com um custo minimo de implementação aos clientes.

  2. Que ótimo! Para um melhor trabalho, sugiro que você considere (a) a qualidade das placas fotovoltaicas (há aquelas com maiores e com menores fatores de conversão da energia solar/eficiência), (b) a eventual necessidade de limpeza periódica das mesmas, já que a poeira / sujeira acumulada reduz em muito a eficiência, (d) o passo de cágado do governo para remover os entraves ainda existentes para a veda do excedente para as concessionárias, e (e) os custos de instalação, que já chegaram a 12% do custo total dos sistemas implantados em telhados nos EUA, contra metade desse percentual na Alemanha.

    Se considerados apropriadamente, tais aspectos contribuirão para a solidez do plano de negócios.

O que você pensa a respeito?