Impactos Abruptos das Mudanças Climáticas – Quando Falam os Cientistas Norte-Americanos

Os EUA continuam sendo, de longe, o país que emite maiores quantidades per capita de gases causadores de mudanças climáticas.  E, também, o maior obstáculo a acordos internacionais sobre o tema.  Não importa o que diga a NASA, capaz de medir até mesmo os níveis de umidade nos solos subsuperficiais e nos aquíferos profundos de maneira a prever oscilações nas safras de alimentos, os grandes lobbies de geração de eletricidade com energia suja (carvão) preferem responsabilzar o desmatamento na Amazônia e doar uns trocados para as ONGs internacionais de lá com forte atuação no Brasil.

No entanto, diversos estados norte-americanos já vêm, há muito, desenvolvendo políticas para “sociedades de transição”, com vistas a garantir, em seus territórios, a segurança alimentar (sobretudo de perecíveis), energética, e até de infraestrutura em geral (estradas costeiras, sistemas de captação de água, edificações, etc.).

Agora, o Conselho Nacional da Pesquisa Científica dos EUA acaba de publicar um extenso relatório intitulado Impactos Abruptos das Mudanças Climáticas – Antecipando Surpresas, que pode ser lido online, ainda que os interessados se restrinjam ao Sumário Executivo.  Para os cretinos que insistem que nada disso é verdade e para a turma do “Rolando o Lero” das “arvrinhas” da Amazônia e da Mata Atlântica, essa é uma boa leitura, ainda que com o risco de perderem as suas fontes de renda.

O resumo da ópera é: as mudanças climáticas já estão acontecendo, são irreversíveis, e causarão graves impactos sobre a ordem social e econômica mundial.  A enrolação diplomática do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) é amplamente demolida.  Nada de “até 2.100”, mas agora e num futuro bem mais próximo.  Para o que lêem inglês, as páginas podem ser avançadas clicando nas teclas com a seta para a direita, acima do link.  Infelizmente, baixar o relatório todo é um pouco mais complicado.

“Além das mudanças abruptas no próprio sistema climático, mudanças climáticas graduais podem ultrapassar limites tanto nos sistemas naturais quanto nos sistemas humanos. (leia-se, a inundações mais frequentes do sistema de metrô de Nova York ou a necessidade de realocar sistemas de captação de água para o consumo humano, como já ocorre no delta do rio San Francisco).   (…) A infraestrutura humana é construída para certas expectativas de vida, mas mesmo mudanças climáticas graduais podem ultrapassar de maneira abrupta certos limites em sua funcionalidade, tais como a elevação do nívels dos oceanos (…), comprometendo barragens marinhas, dutos, estradas e edificações”.

O relatório, com 222 páginas, foi patrocinado, entre outras instituições, pela Academia Nacional de Ciências, pela Administração Nacional dos Oceanos e da Atmosfera (órgão do governo dos EUA), pela Fundação Nacional de Ciências e outras instituições  cientificas.  É altamente improvável que neles tenham influído a diplomacia que força a ONU a adiar tudo para um futuro distante – “até 2.100” – ou a politicagem que predomina nas instituições científicas brasileiras.

“O clima não é o único fator de stress no planeta – outros fatores, como a exaustão dos recursos e as sempre crescentes densidades populacionais e de consumo também exercem uma enorme pressão à resiliência (capacidade de adaptação )  da natureza e da sociedade às mudanças súbitas.  (…) Este estudo difere dos anteriores relacionados às mudanças abruptas por incluir não apenas as mudanças climáticas físicas mas, também, às severas mudanças nos sistemas naturais e humanos. (…) A característica-chave dessas mudanças é que elas podem ocorrer de maneira mais rápida do que o previsto, o planejado ou o orçado de maneira a forçar comportamentos mais reativas do que proativos.”

Entre as mudanças que já estão ocorrendo, o estudo cita a drástica redução da camada de gelo no Ártico durante o verão, a extinção de espécies (“as mudanças climáticas atuais são as mais rápidas que ocorreram nos últimos 65 milhões de anos”). A patir da página 39, o estudo começa a descrever as mudanças abruptas que causam preocupações mais elevados (“primary concern”),  entre as quais (a) as mudanças de direção nas correntes superficiais e profundas do Atlântico, (b) a elevação do nível dos oceanos (que é usualmente gradual mas pode se tornar “súbita”, isto é, ocorrer em poucos anos, já que ela depende da topografia de cada região), (c) acidificação e teores de oxigênio dissolvido nos oceanos, (d) alterações na circulação dos ventos na atmosfera, (e) aumento da frequência de eventos climáticos extremos (ondas de calor e chuvas intensas), com especial ênfase nos ciclones (47,4%) e secas (23,8%), além de grandes tempestades e enchentes (aumento em torno de 10%).

Entre os mais graves impactos decorrências das mudanças climáticas súbitas está a produção de alimentos, cuja demanda deve duplicar (um crescimento de 100%) até 2050 (cf. páginas 131 e seguintes), e as disponbilidades de água (páginas 133 e seguintes) cuja utilização é em até 90% para a irrigação.  Ou seja, os dois problemas estão interrelacionados.

Já é tempo do governo brasileiro – e das autoridades estaduais  – falarem sério sobre esses temas.  Será que elas já conseguem ver ao menos alguma relação entre os portos em fase de implantação, a elevação do nível dos mares e a topografia costeira.  Aliás, será que o governo brasileiro tem as plantas com a topografia costeira no litoral do país?  Este seria um bom início de conversa….

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Num estado como o Rio de Janeiro, onde se faz o licenciamento ambiental de um Complexo Petroquímico (COMPERJ) sem que haja uma definição das fontes de abastecimento de água e do local de lançamento dos efluentes líquidosk, a situação é grave.

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Esse tema já havia sido parcialmente abordado, neste blog, na descrição do tema conhecido como flash flooodings ou enchentes abruptas.

A California Divulga Plano Estadual (Revisado) de Proteção Contra as Mudanças Climáticas

Países sérios vêm elaborando, há bastante tempo, os seus planos de adaptação às mudanças climáticas voltados para a proteção de suas populações, bem como de seu patrimônio e dos recursos mais vulneráveis: agricultura, energia, abastecimento de água, saúde pública, barragens de proteção contra enchentes,  gestão de situações de emergências, etc.  Não ficam gastando tempo e muito dinheiro plantando “arvrinhas” para “compensar” as emissões de carbono de eventos isolados ou mesmo das emissões causadoras dessas emissões!  E, quando o governo da União não o faz, como é o caso dos EUA, os estados assumem a liderança, e fazem.  Num país de dimensões continentais, esse é certamente um caminho melhor do que ficar esperando por decisões federais, como ocorre no Brasil.

De fato, esses países – assim como suas corporações – já estão abandonando as questões tradicionais de meio ambiente, antes mais relevantes, porque os seus rios, lagos e lagoas já estão limpos – ou quase totalmente limpos, segundo os critérios deles, muito mais exigentes.  E seus parques já estão implantados (nunca foram meros “parques de papel”, como aqui).  Com o advento e a maneira com que se agravaram os problemas relacionados às mudanças climáticas, adotaram – tanto os países quanto as corporações – o conceito de “resiliência”, palavra utilizada pela Física para a capacidade dos materiais de resistirem a mudanças abruptas de pressão, temperatura e outras.  As diretorias de “sustentabilidade” das grandes corporações estão sendo simplesmente extintas.

As mudanças climáticas são consideradas irreversíveis em todos os países sérios, sobretudo em virtude do aumento constante das emissões dos gases que as causam e do consumo de combustíveis fósseis, com ou sem redução do desmatamento na Amazônia (o tema preferido da mesmice ambientalista e dos setores econômicos norte-americanos que se opõem à redução das emissões por suas termelétricas e por seu agro-negócio).

Protegendo a Califórnia: Reduzindo os Riscos Climáticos, com 289 páginas, uma atualização de um documento anterior, divulgado em 2009 com o título “A Estratégia da Califórnia para a Adaptação às Mudanças Climáticas”.  Foi disponibilizado recentemente para consulta pública e comentários, antes da redação da versão final. Uma consulta ao índice desse trabalho mostra a ordem de prioridades: (a) agricultura, (b) biodiversidade e habitats, (c) gestão de situações de emergência, (d) energia, (e) florestas, (f) oceanos e recursos/ecossistemas costeiros, (g) saúde pública, (h) transporte, e (i) água.

No Apêndice C, encontram-se mais de 600 referências às fontes consultadas, demonstrando a seriedade do trabalho, que envolveu agências variadas do governo, além de universidades, instituições de pesquisa, comunidades locais e outras.

A versão revisada do plano relata, entre outras coisas: (a) um modelo que permite aos cidadãos e instituições a visualização dos impactos climáticos sobre as diversas localidades, para uso dos governos locais (municipais) e administrações regionais, (b) a criação de um Consórcio de Mudanças Climáticas para as Colheitas de Perecíveis (frutas, verduras e legumes, por contraposição aos grãos que se incluem na categoria de “commodities” e podem ser estocados por longos períodos), (c) padrões de eficiência energética que já resultaram na economia de US$ 74 bilhões de dólares resultantes de economias nas contas de energia (desde 1975) e no aumento da segurança energética, (d) a preparação da Califórnia para ondas de calor. “Reduzir os riscos climáticos protege o povo, a economia e os recursos naturais da Califórnia.”

O documento foi disponibilizado poucos dias antes do governador da Califórnia, Jerry Brown, declarar um tipo de estado de emergência, como noticiou, entre outros meios de imprensa norte-americana, o New York Times: “o Estado está sofrendo de uma das mais graves secas já registradas”.  Em pleno inverno, algo que usualmente só acontece no pico do verão!  Produtores de gado tiveram que vender parte de seus rebanhos por falta d’água e, em áreas nas quais usualmente a pastagem é abundante, passaram a ter que comprar feno.  Se a disponibilidade de água não aumentar, cerca de 100.000 hectares de terras que usualmente produzem perecíveis não serão sequer semeadas.

Estudos recentes mostraram que a elevação do nível do oceano na costa da California, com a intrusão da língua salina no delta do rio São Francisco, resultará na necessidade de altos investimentos no reposicionamento dos sistemas de captação de água para o abastecimento da cidade.

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Já é tempo do Brasil – União e Estados – trabalharem no planejamento integrado para minimizar as consequências das inevitáveis mudanças climáticas, com especial atenção para a segurança alimentar e energética (que não inclui apenas a produção de mais energia), bem como no abastecimento de água.  Aqui, isso é bem mais difícil dada a prevalência das políticas de curto prazo, com cunho eleitoral, e do loteamento de cargos que se convencionou de “formação da base aliada”, levando cada ministro ou secretário a cuidar apenas de seu “feudo”.

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Lá, eles também propõem o plantio de árvores em áreas urbanas para amenizar os episódios de ondas de calor.  Mas não anunciam o plantio de 10 milhões de mudas de essências nativas com dinheiro de “compensações ambientais”, e depois ninguém fica sequer sabendo se e onde foram plantadas, como no Rio de Janeiro.

 

 

Segurança Alimentar – Brasil X Países Sérios e Realidades Preocupantes

Normalmente, a Inglaterra exporta 2,5 milhões de toneladas de trigo.  Este ano, terá que importar uma quantidade equivalente do cereal.  Segundo uma analista senior do Conselho de Desenvolvimento da Agricultura e da Horticultura citada em reportagem do The Guardian, “o mais chuvoso outono desde o início dos registros climáticos no país seguido da primavera mais fria foram a causa da devastação da colheita de trigo”.  No título da reportagem do The Guardian, “os fazendeiros falharam em alimentar a Inglaterra depois que o clima extremo atingiu o colheita de trigo”.

“À reduzida colheita de trigo se adicona a preocupação crescente com a a produtividade por hectare que os fazendeiros britânicos podem alcançar.  (…)  Outras culturas foram duramente atingidas pela severidade do clima.  (…) O açúcar de beterraba, que é cultivada em 125 mil hectares principalmente no leste da Inglaterra, foi atingido por um estranho fenômeno que paralisou a germinação de sementes e reduziu a produção em 50%”.

De acordo com o órgão ambiental da Inglaterra denominado Departamento de Meio Ambiente, Alimentos e Assuntos Rurais (Departamento = Ministério, um órgão sério para assuntos internos mas que se dispersa bastante com preocupações sobre a Amazônia e a caça de elefantes na África, no velho estilo colonialista), afirma que “apenas agora é possível perceber o pleno impacto do forte inverno, com uma queda na renda da cultivo agrícola apresentando um decréscimo de US$ 1, 15 bilhão”, ou mais de R$ 2,3 bilhões.

No mesmo período em que a Inglaterra divulgava informações sobre os impactos do clima sobre a produção interna de alimentos, um relatório conjunto da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OECD e da FAO, divulgado inicialmente numa conferência em Pequim, prevê uma redução significativa na taxa de crescimento da produção de alimentos, que deverá passar de 2,3% ao ano como ocorreu no período 2003-2012, para 1,5 ao ano, no período 2013-2022.

“Enquanto os estoques de alimento nos maiores países produtores e consumidores continuarem baixos, amplifica-se o risco da volatilidade de preços.  Uma nova seca das proporções da que ocorreu em 2012, aliada aos baixos estoques, poderá elevar os preços dos alimentos entre 15% e 40%” – afirma o relatório.

A FAO costuma adotar linguagem diplomática e limitada às projeções de produção e consumo de alimentos, deixando os fatores causadores de uma potencial e provável escassez para outros organismos e pesquisadores.

Assim, vale notar que pouco antes – em abril de 2013 – a Convenção da ONU para o Combate à Desertificação divulgou o relatório de sua Segunda Conferência Científica sobre o tema, sob o título de Avaliação Econômica da Desertificação, Gestão Sustentável de Terras e Resiliência das Regiões Áridas, Semiáridas, e Sub-úmidas Secas, no qual indica que 168 países defrontam-se com severos problemas de degradação dos solos.  A última avaliação desse tipo, divulgada em meados dos anos 1990, reportava esse tipo de problema em 110 países.  Um aumento significativo.

Segundo o estudo, os custos anuais da degradação de terras e desertificação já são da ordem de US$ 490 bilhões por ano e as áreas atingidas crescem a uma taxa de 120 mil km2 anuais, ou o equivalente a duas Suíças.  As principais causas desse fenômeno são a seca, as mudanças climáticas, a agricultura intensiva e às más práticas de irrigação.

O Brasil encontra-se entre os líderes mundiais em conservação dos solos por iniciativa e pelo trabalho persistente de disseminação dos próprios produtores rurais que, no passado, adotaram e difundiram o conceito de “plantio direto”, mantendo a cobertura do solo com a palha o que evita a erosão e assegura a recarga dos aquíferos subterrâneos e a vazão dos rios (a agricultura brasileira alcançou essa posição sem apoio do governo federal).

Enquanto os paises sérios e organizações internacionais se preocupam com a segurança alimentar, o Brasil se dilacera na demonização dos produtores rurais e na falta de soluções para as já imensas áreas de reservas indígenas, que correspondem a cerca de 12% do território para menos de 1% da população (sendo que uma parcela considerável vive em cidades).  São terras improdutivas nos termos da caótica “política indigenista” brasileira que as quer intocadas, sem dar aos indígenas autonomia para usá-las como quiserem.  Hoje, no Brasil, já são mais de 110 ha por (auto-denominados) índios.

Isso para não falar na insistência marqueteira em criar novos parques nacionais e outras unidades de conservação – que já chegam a 35% da Amazônia – nos quais não há infraestrutura para visitação (ou ela é limitada a uma fração irrisória da área) ou de pesquisa, para não falar de um mínimo de capacidade de planejamento e gestão.

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Para os que se interessam pelo tema – e, em especial, para os mais céticos – sugere-se o excelente documentário de Ken Burns sobre a mais duradoura seca já ocorrida na maior região produtora de grãos dos EUA, que se iniciou em 1935 e durou quase uma década.

Um resumo em português do fenômeno que ficou conhecido como Dust Bowl pode ser encontrado na Wikipedia.

 

Degelo no Artico – Novas Evidências da Aceleração das Mudanças Climáticas

A Agência Espacial Européia acaba de divulgar novas informações sobre o degelo no Ártico, que é muito muito maior do que se pensava a partir das imagens anteriores de satélite.   O satélite norte-americano ICESat havia medido basicamente a amplitude do degelo em termos de superfície, área, enquanto o novo satélite europeu Cryosat-2 foi o primeiro que mediu a espessura do gelo, e com margem de erro de apenas 10 cm (dados consistentes com medições de baixa altitude e oriundos de embarcações, inclusive submarinos).  Há uma década, a espessura do gelo nas regiões ao norte do Canadá e da Groenlândia situava-se com regularidade entre 5 e 6 metros durante o verão; agora, esse espessura situa-se entre um e três metros no mesmo período do ano.

Combinando dados de várias fontes anteriores e atuais, os cientistas da Agência Espacial Europeia mostraram que no inverno de 2004 o volume total de gelo na área mais central da região Ártica era de 17.000 km3; em 2012 esse volume havia caído para 14.000 km3.  Nada tão assustador se essa queda não tivesse sido muito maior durante o verão, quando o volume de gelo no mesmo período caiu praticamente à metade.

Numa declaração ao jornal inglês The Guardian, Seymour Laxon, do Centro de Observação e de Modelagem do Polo da Universidade College London afirmou que “muito em breve nós vamos assistir ao momento simbólico em que olhamos para imagens de satélite e, num dia de verão, vemos que não há mais cobertura de gelo no Ártico, apenas água“.  Laxon tentou se corrigir afirmando que ainda é cedo para uma afirmação mais contundente, que essa tendência ainda poderia ser revertida, mas outros especialistas em modelagem afirmaram que os indicadores apontam no sentido contrário, isto é, as taxas de degelo – incluindo a perda de volume – só tendem a aumentar nos próximos dez anos.

Temores adicionais estão ligados à reflexão da luz para o espaço e à liberação de imensas reservas de metano que se encontram contidas pelo gelo.  Mas esses são outros assuntos e bem além dos fatos.  Os fatos – no caso, os números – são inquestionáveis e imunes ao otimismo e ao pessimismo.  Nenhum cientista cearense ou outro poderá contradizê-los.

 

 

Mudanças Climáticas e Sociedade de Transição na Califórnia

Em junho de 2005, o Governo da Califórnia determinou à sua Agência de Proteção Ambiental que prepara-se relatórios científicos periódicos sobre os potenciais impactos das mudanças climáticas sobre a economia desse estado norte-americano.  A Agência pediu à Comissão de Energia da Califórnia e ao Centro de Mudanças Climaticas que liderassem esse trabalho.  O sumário do terceiro relatório resultante dessa avaliação periódica já se encontra disponível para download, com o título de Vulnerabilidade e Adaptação – Os Crescentes Riscos das Mudanças Climáticas na Califórnia.  De sua elaboração participaram também a Agência de Recursos Naturais, o Departamento de Recursos Hídricos, o Conselho de Proteção do Oceano, o Departamento de Alimentos e Agricultura e mais nove órgãos do governo do estado.  É notável a integração entre os órgãos de governo (não submetidos a qualquer tipo de loteamento) e em muitas das páginas desses órgãos já se encontram iniciativas relacionadas à transição que se impõe diante das mudanças climáticas.

O relatório examina opções de adaptação através de estudos de caso regionais e sugere iniciativas legais, regulatórias e sócio-econômicas de maneira que a adaptação possa ser feita de forma efetiva (isto é, com resultados práticos) em níveis local e estadual.

Os 30 estudos que resultaram no relatório abordaram assuntos relacionados à temas como energia, água, agricultura, saúde pública, transportes, áreas costeiras e recursos ecológicos considerados vitais para a Califórnia.

O relatório ressalta, entre outras coisas, que (a) o sistema elétrico do estado é mais vulnerável do que indicaram avaliações anteriores, (b) o Delta dos rios Sacramento-San Joaquin está “afundando” de modo a colocar em risco as barragens de terra que protegem as terras agrícolas,e (c) os ventos e ondas, além da elevação dos oceanos, farão com que as inundações sejam mais extensas.

Tudo muito parecido com o trabalho similar que vem sendo feito no Brasil, em nível federal e dos estados, com o estabelecimento de limites para emissões de gases causadores de mudanças climáticas?  Qual nada!  O governo brasileiro ignorou o estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais que recomendou entre outras coisas, que o país se preparasse para remover 46 milhões de habitantes do litoral.  Preferiu uma lei genérica sobre emissões e foi dormir com a “barriga cheia”, saciada de vaidades.

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Só recentemente o PIB do Brasil superou o da Califórnia que, se comparada com as maiores economias do mundo, passou de oitava para a nona posição.  A população da Califórnia é de pouco menos de 38 milhões de habitantes.