Governos Sérios e Ecossistemas Humanos

Na Califórnia, os problemas ambientais relacionados à s mudanças climáticas já se agravaram muito, criando riscos para o abastecimento de água, para a produção agrícola e para o transporte nos canais de navegação. Há meses, o governo do estado criou uma Comissão do Delta dos rios Sacramento e San Joaquín, com representantes de todos os interessados – desde as empresas de água e municípios, passando pela comunidade de ambientalistas e associações de agricultores, e indo até cientistas. As perspectivas são sombrias. Lá, já não se finge que o nível do mar não está subindo, que a formação de neve nas montanhas não está se reduzindo sensivelmente, ou que as mudanças climáticas são reversíveis. Ninguém diz que “existe a possibilidade” de que essas coisas aconteçam ou que vão acontecer “no futuro, um dia”. Todos reconhecem que essa já é uma realidade e que se trata de proteger um ecossistema humano. Não há 10 alternativas.

Os últimos relatórios da Comissão – denominada Visão do Delta (Delta Vision) – indicam que a redução das disponibilidades de água para abastecimento humano e para os outros fins já é um fato. E que a subida do nível do mar já ameaça o sistema de diques, com a perda potencial de 250.000 hectares de terras agrícolas altamente fértil, além de 1,5 milhão de hectares de terras medianamente férteis. Novos desenvolvimentos urbanos não podem ser autorizados, e esse é, também, um problema gravíssimo.

Hoje, 21 de agosto de 2007, as conclusões e pontos de vista das principais correntes de opinião foram apresentadas e transmitidas ao vivo através da internet – a transmissão – ou “webcast” – foi amplamente divulgada ((http://www.gov.ca.gov/). Os cientistas deixaram claro que há que ser feita uma opção entre a proteção dos ecossistemas e a proteção dos interesses humanos. E que é preciso tomar decisões no menor prazo possível.

Em seu pronunciamento final, o governador chamou a atenção para o fato de que “há um elefante na sala” e não podemos fingir que isso não é um fato. E que ele se orgulha de ter tirado esse assunto de debaixo do tapete. Ao final, pediu à Comissão que continuasse trabalhando num projeto de longo prazo, para ser implantado ao longo dos próximos 20-25 anos (os custos serão elevadíssimos). Falou por 3 minutos, da mesma forma que a senadora Felstein, que fez o seu pronunciamento antes dele, sem que nenhum dos dois tenha tentado transformar a audiência pública num palanque eleitoral, como frequentemente ocorre na terra do Pau-Brasil.

Os documentos produzidos pela Visão do Delta nos últimos meses estão à disposição dos interessados em http://deltavision.ca.gov. Nada escondido, nada decidido em gabinetes fechados. Isso se chama de transparência na formulação de políticas públicas consistentes.

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“Webcastings” ou transmissões pela net de encontros como esse têm a vantagem de assegurar a participação de um maior número de pessoas sem os custos do deslocamento e sem a necessidade de que cada instância do poder público tenha o seu canal de televisão!

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Aqui, relatórios sérios sobre mudanças climáticas, como os produzidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, que sugerem a necessidade de remoção de cerca de 40 milhões de habitantes do litoral brasileiro “até o final do século” e a crescente desertificação do semi-árido nordestino, nem são considerados pelo governo, em seus vários níveis, na formulação de políticas públicas. A desertificação do semi-árido seguramente gerará êxodo rural para a periferia das grandes cidades.

Esses relatórios encontram-se disponíveis na página do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do INPE, no endereço abaixo. Atenção, não se trata de um “grupo ambientalista”, mas do mais importante centro de pesquisas do governo brasileiro nessa área.. com reconhecimento internacional.

Os relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC e o Relatório Stern também se encontram lá, ainda que apenas em ingles. Seria bom se alguém sério financiasse a tradução dos mesmos para que um maior número de jovens estudantes pudesse saber exatamente o que está acontecendo e quais os prognósticos que resultaram de consenso na comunidade científica internacional.

Diante desses prognósticos, todos os outros problemas ambientais passam a ser apenas periféricos.

http://www6.cptec.inpe.br/mudancas_climaticas/prod_probio.shtml

Energias Sustentáveis – O Abismo Cultural Entre o Brasil e os Países Sérios

Financistas investem em meio ambiente para ganhar dinheiro e não por ética ou “responsabilidade ambiental”. Há exceções, como em tudo. Exceções que comprovam a regra. Mas qualquer discussão sobre “a ética no sistema financeiro” – incluindo as organizações do tipo Banco Mundial e BNDES – é puro diletantismo. Ainda assim, boas coisas acontecem à medida em que muda o sistema de percepções e valores da sociedade e os financistas vislumbram a possibilidade de novas fontes de lucros.

Sob a liderança de um poderoso grupo financeiro – o Texas Pacific Group -, há alguns meses foi feita a aquisição da pior concessionária de energia elétrica dos EUA, a Texas Utilities (TXU). Essa foi a maior operação de aquisição de uma empresa com capital próprio, isto é, sem o recurso a empréstimos bancários: cerca de R$ 90 bilhões. A decisão não foi tomada em decorrência das preocupações ambientais, mas da expectativa de lucro. A idéia é transformar a TXU numa empresa modelo em termos de fontes renováveis de energia, redução de perdas no sistema, programas de gerenciamento da demanda e outras iniciativas que, ao final de um ciclo, atraiam a atenção dos pequenos investidores em ações, elevando o seu preço.

Ao Texas Pacific Group, uniu-se o banco Goldman Sachs, que ficou com a fama, já que o primeiro não gosta de divulgar as suas operações. O Goldman Sachs já havia se envolvido numa controvertida operação de compra de 270.000 hectares na Terra do Fogo, no Chile, sob a alegação de criar uma reserva. Com benefícios fiscais, é claro, já que a área foi depois doada a uma ONG norte-americana.

Grupos financistas não agem segundo princípios da ética ou do interesse coletivo, mas a presença de consagrados “ambientalistas” em seus quadros certamente facilitam muito a avaliação de iniciativas nas quais a possibilidade de lucro coincida com os interesses sociais. Assim, a iniciativa da compra da Texas Utilities foi originalmente concebida por representantes de duas ONGs sérias – Environmental Defense – ED (www.environmentaldefense.org) e Natural Resources Defense Council – NRDC (www.nrdc.org) em contatos com um alto executivo do Texas Pacific Group – William K. Reilly. Reilly foi presidente do WWF dos EUA na juventude, diretor da Agência de Proteção Ambiental – EPA, depois presidente do Conselho de Administração do mesmo WWF, e assim por diante, com toda uma vida dedicada aos temas ambientais.

A operação deverá ter a aprovação final das autoridades no início de setembro e as duas ONGs acima mencionadas já foram convidadas a ter representantes num Comitê Consultivo para Energias Sustentáveis a ser criado pelos novos acionistas majoritários da Texas Utilities.

Alguém consegue conceber a presença de profissionais com o perfil de Reilly no topo de grandes grupos financeiros ou no conselho de administração de uma grande corporação brasileira (à excessão da área de cosméticos)? Ou uma companhia de eletricidade brasileira negociando coisas tão sérias com ONGs e ainda convidando os seus representantes para participarem de conselhos consultivos, ou simplesmente tendo um conselho consultivo para “energias sustentáveis”.

Esse é o tamanho do fosso cultural que separa o Brasil dos países sérios!

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De toda forma, foi com base nos verdadeiros princípios federativos que a Califórnia elaborou e implementou políticas públicas de eficiência energética que resultaram em ZERO AUMENTO DE CONSUMO de energia durante 30 anos! Lá – como nos países sérios em geral – consultas e audiências públicas são para valer e não meros jogos de cena. Pessoas de fora da máquina administrativa do governo e das corriolas partidárias têm espaço para se pronunciar e são ouvidas! Além disso, mesmo o governador Arnold Schwarzenegger sendo do mesmo partido político do lastimável George W. Bush, isso não impediu a Califórnia de fazer muitas coisas extramente sérias para a questão das mudanças climáticas, em nada compatíveis com o obscurantismo agressivo que há anos é a marca registrada da Casa Branca.

Aqui, ainda somos reféns das regras da mentalidade da coroa portuguesa, e leis estaduais ou municipais incluem frases como “respeitado o disposto na lei federal” ou mesmo citam o número da lei federal ou até de normas que as regulamentam – devida ou indevidamente -, desprezando qualquer bom senso e amarrando tudo a tudo, numa teia que engessa a criatividade, a diversidade de pensamento, a dinâmica social e econômica, e o país. Até recentemente, para dizer que era proibido fumar no avião citava-se o número da lei federal, em lugar de um mero “é proibido fumar neste vôo”… como se o número da lei interessasse a alguém.

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Apesar de listado numa área denominada “blogsfera” da página denominada “Planeta Sustentável” da editora Abril (que tem finalidades puramente comerciais), este blog não guarda qualquer relação profissional ou editorial com a mesma. O Planeta Sustentável da Abril tem o estilo “Globo” e busca atrair visitantes usando uma abordagem na qual uma notícia “ruim” se dilui entre muitas maquiadas com tons róseos. Com a atual população – e ainda por cima crescendo – e os atuais padrões de consumo o planeta não é sustentável. Todo mundo sabe disso.

"Não acredite em tudo que a sua cabeça lhe diz!" – Lula, Bush e Mudanças Climáticas

A frase do título estava escrita num adesivo colado no vidro de um carro na Califórnia. Dá para lembrar o blá-blá-blá de Lula e Bush diante das propostas dos países sérios em relação à necessidade de medidas para conter o avanço das mudanças climáticas. Ambos parecem sempre acreditar no que as cabeças lhes dizem.

Lula fingiu um protesto veemente contra a falta de compromissos consensuais claros sobre a redução das emissões de gases causadores de mudanças climáticas na reunião do G-8, ainda sabendo que a Europa e o Japão continuarão a avançar com ou sem os EUA. Lula reclamou mas não propôs nada, exceto que os países ricos devem aumentar a sua contribuição financeira para os pobres. Essa repetitiva obsessão com a caridade desconsidera o fato de que todos os países que escaparam do subdesenvolvimento nas últimas décadas não contaram com qualquer ajuda externa, nem mesmo das tolas organizações financeiras tipo Banco Mundial. China e Coréia do Sul contaram mesmo foi com investimentos massivos e prolongados em educação e tecnologia, além de todo um conjunto de políticas públicas setoriais.

Lula talvez talvez tenha ficado com uma pontinha de inveja da decisão do G-8 de liberar US$ 60 bilhões para a África. Mas no campo específico das mudanças climáticas não propôs e nem poderia propor, já que, como Bush, não consegue estabelecer relações entre eficiência no uso de energia e avanços tecnológicos, de um lado, e redução das emissões desses gases, do outro. O Brasil não tem políticas públicas de eficiência energética e não dá atenção nem mesmo ao imenso potencial de aumento da geração com a simples “repotencialização” e automação de suas hidrelétricas mais antigas (“repotencialização” é a troca de velhas turbinas por outras mais modernas, aumentando significativamente a geração com um custo muito abaixo daquele resultante da construção de novas hidrelétricas). Afinal, projetos de “repotencialização” não dão lucro para as grandes empreiteiras.

O Brasil não domina tecnologia para a geração elétrica solar ou eólica. Na verdade, não domina sequer a tecnologia de fabricação de turbinas para hidrelétricas, que é exclusividade de multinacionais instaladas no país. Tendo abraçado e passado a venerar o tal “investimento externo”e abandonado o conceito de nação, o Brasil continuará pagando pedágio para o desenvolvimento de seus recursos naturais. O capital que entra, sai, sob a forma de remessa de lucros e pagamentos de royalties pela tecnologia. As empresas brasileiras, hoje, não dominam nem mesmo o mercado interno de creme dental! Fabrica ônibus híbridos para exportação e não os adota nas grandes cidades altamente poluídas por não ter políticas ambientais claras e sistemas de incentivos fiscais direcionados para o interesse público. Quando a Eletrobras paga mais caro por um tipo de geração de eletricidade por fontes “alternativas”, acaba gerando mais impostos, ao contrário até mesmo dos EUA, onde a geração eólica é estimulada por reduções nos impostos.

Lula insiste na “tese” de que não há conflitos entre a produção massiva de biocombustíveis para exportação e acredita no que sua cabeça lhe diz, apesar da FAO já ter tornado públicos os primeiros relatórios indicando aumentos substantivos nos preços dos alimentos em decorrência do aumento da concorrência pelo uso de terras agrícolas. Lula insistiu na “redenção do pequeno agricultor nordestino” através do biodiesel da mamona ainda que ninguém sensato vá produzir óleo de mamona para usar como combustível – já que os preços desse óleo para usos mais nobres são muito mais elevados. Como concebido, o Programa Nacional do Biodiesel vai é transformar esses pequenos produtores em reféns das grandes esmagadoras e, depois, em favelados. Afinal, que pequeno produtor pode participar de um leilão de compra da Petrobras, onde o “lance mínimo” é de 1 milhão de litros?

Por seu lado, Bush também acredita no que a sua cabeça lhe diz, se é que ele tem uma que não se limita a repetir o que lhe dizem as grandes petroleiras. Mesmo os republicanos já sabem que Bush está cometendo um grande erro ao negar-se a colaborar com a humanidade. A obiteração da consciência na alta administração norte-americana é tamanha que o chefão da NASA chegou a declarar, recentemente, que “ninguém pode dizer que clima é o clima ideal para a humanidade”! Total falta de limites para a arrogância vazia.

Grandes investidores norte-americanos já apostam numa mudança total de atitude logo após o seu mandato. Contagem regressiva para o grande alívio que será a transmissão do cargo, não importando para quem. Nem mesmo os republicanos não suportam mais o que está acontecendo na Casa Branca e comentam, abertamente, que não são ouvidos. Nos EUA, governadores e prefeitos continuam tomando iniciativas importantes para a redução das emissões de carbono e grandes investidores já começaram a tomar o mesmo rumo. Recentemente, dois gigantes financeiros – Texas Pacific Group e Goldman Sachs – adquiriram a mais “suja” empresa de energia elétrica dos EUA – a TXU Energy, do Texas – com o objetivo de fazer um rápido aumento no seu valor de mercado (valor das ações) através de uma transformação radical baseada nas energias renováveis e na eficência energética. Foi o maior investimento direto (chamado equity nos EUA, isso é, investimento com capital próprio) desse tipo da história: cerca de US$ 50 bilhões. Grupos com o histórico de de só considerarem projetos com altas taxas de retorno não firmariam o compromisso de substituir a impalantação de uma dezena de novas usinas térmicas por energia eólica se não estivessem totalmente confiantes de que o panorama do setor vai mudar totalmente ao final da “administração” Bush.

Lula e Bush poderiam fazer o G-2! Ambos acreditando em tudo o que as suas cabeças lhe dizem. Lula colocaria a culpa nos ricos, Bush dobraria a aposta em sua proposta de que o Brasil sirva de capataz da produção de etanol nos países mais pobres da América Latina. E, de repente, quem sabe, “rola uma graninha” para cessar a destruição da Amazônia.

Essa é uma proposta que já vem sendo discutida há algum tempo. Mas, afinal, quanto vale a floresta amazônica? O valor “de mercado” dos créditos de carbono – definidos pelos países que integram o G-8 -, o valor da madeira em pé, o valor da madeira beneficiada, ou esses valores e mais os lucros cessantes pela não expansão da fronteira agrícola? E qual o valor simbólico de uma negociação desse tipo para o Brasil? Para os adoradores do livre-mercado, que não entendem o que não pode ser quantificado, basta lembrar que, no passado, a Casa Branca mandou um parque nacional sob gestão privada das negociações envolvendo a venda da Paramount para a Sony. No parque vive a águia de cabeça branca ou águia-careca que é símbolo dos EUA.

***

Evidentemente, a chanceler alemã e presidente da União Européia Angela Merkel tratou Bush de maneira diplomática ao declarar que as propostas dele eram bem vindas. De toda forma, a União Européia já havia entrado num acordo sobre as suas próprias metas. Angela Merkel ignorou a presença e os comentários de Lula, cuja participação na cúpula do G-8 se deu fundamentalmente no momento da foto.

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O conceito de “valor simbólico” é diferente do de “valor da marca”. Assim, tanto a Microsoft como a Coca-Cola sabem exatamente qual o valor de suas marcas, que está lançado em suas contabilidades. Aqui, nada. No Rio de Janeiro, descarta-se o valor da marca FEEMA – Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente, o mais antigo órgão especificamente de meio ambiente do Brasil, por um capricho.

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Que percentual da “neblina” que cobre a cidade do Rio de Janeiro no inverno se deve à poluição acumulada em condicões desfavoráveis de dispersão atmosférica?

“Não acredite em tudo que a sua cabeça lhe diz!” – Lula, Bush e Mudanças Climáticas

A frase do título estava escrita num adesivo colado no vidro de um carro na Califórnia. Dá para lembrar o blá-blá-blá de Lula e Bush diante das propostas dos países sérios em relação à necessidade de medidas para conter o avanço das mudanças climáticas. Ambos parecem sempre acreditar no que as cabeças lhes dizem.

Lula fingiu um protesto veemente contra a falta de compromissos consensuais claros sobre a redução das emissões de gases causadores de mudanças climáticas na reunião do G-8, ainda sabendo que a Europa e o Japão continuarão a avançar com ou sem os EUA. Lula reclamou mas não propôs nada, exceto que os países ricos devem aumentar a sua contribuição financeira para os pobres. Essa repetitiva obsessão com a caridade desconsidera o fato de que todos os países que escaparam do subdesenvolvimento nas últimas décadas não contaram com qualquer ajuda externa, nem mesmo das tolas organizações financeiras tipo Banco Mundial. China e Coréia do Sul contaram mesmo foi com investimentos massivos e prolongados em educação e tecnologia, além de todo um conjunto de políticas públicas setoriais.

Lula talvez talvez tenha ficado com uma pontinha de inveja da decisão do G-8 de liberar US$ 60 bilhões para a África. Mas no campo específico das mudanças climáticas não propôs e nem poderia propor, já que, como Bush, não consegue estabelecer relações entre eficiência no uso de energia e avanços tecnológicos, de um lado, e redução das emissões desses gases, do outro. O Brasil não tem políticas públicas de eficiência energética e não dá atenção nem mesmo ao imenso potencial de aumento da geração com a simples “repotencialização” e automação de suas hidrelétricas mais antigas (“repotencialização” é a troca de velhas turbinas por outras mais modernas, aumentando significativamente a geração com um custo muito abaixo daquele resultante da construção de novas hidrelétricas). Afinal, projetos de “repotencialização” não dão lucro para as grandes empreiteiras.

O Brasil não domina tecnologia para a geração elétrica solar ou eólica. Na verdade, não domina sequer a tecnologia de fabricação de turbinas para hidrelétricas, que é exclusividade de multinacionais instaladas no país. Tendo abraçado e passado a venerar o tal “investimento externo”e abandonado o conceito de nação, o Brasil continuará pagando pedágio para o desenvolvimento de seus recursos naturais. O capital que entra, sai, sob a forma de remessa de lucros e pagamentos de royalties pela tecnologia. As empresas brasileiras, hoje, não dominam nem mesmo o mercado interno de creme dental! Fabrica ônibus híbridos para exportação e não os adota nas grandes cidades altamente poluídas por não ter políticas ambientais claras e sistemas de incentivos fiscais direcionados para o interesse público. Quando a Eletrobras paga mais caro por um tipo de geração de eletricidade por fontes “alternativas”, acaba gerando mais impostos, ao contrário até mesmo dos EUA, onde a geração eólica é estimulada por reduções nos impostos.

Lula insiste na “tese” de que não há conflitos entre a produção massiva de biocombustíveis para exportação e acredita no que sua cabeça lhe diz, apesar da FAO já ter tornado públicos os primeiros relatórios indicando aumentos substantivos nos preços dos alimentos em decorrência do aumento da concorrência pelo uso de terras agrícolas. Lula insistiu na “redenção do pequeno agricultor nordestino” através do biodiesel da mamona ainda que ninguém sensato vá produzir óleo de mamona para usar como combustível – já que os preços desse óleo para usos mais nobres são muito mais elevados. Como concebido, o Programa Nacional do Biodiesel vai é transformar esses pequenos produtores em reféns das grandes esmagadoras e, depois, em favelados. Afinal, que pequeno produtor pode participar de um leilão de compra da Petrobras, onde o “lance mínimo” é de 1 milhão de litros?

Por seu lado, Bush também acredita no que a sua cabeça lhe diz, se é que ele tem uma que não se limita a repetir o que lhe dizem as grandes petroleiras. Mesmo os republicanos já sabem que Bush está cometendo um grande erro ao negar-se a colaborar com a humanidade. A obiteração da consciência na alta administração norte-americana é tamanha que o chefão da NASA chegou a declarar, recentemente, que “ninguém pode dizer que clima é o clima ideal para a humanidade”! Total falta de limites para a arrogância vazia.

Grandes investidores norte-americanos já apostam numa mudança total de atitude logo após o seu mandato. Contagem regressiva para o grande alívio que será a transmissão do cargo, não importando para quem. Nem mesmo os republicanos não suportam mais o que está acontecendo na Casa Branca e comentam, abertamente, que não são ouvidos. Nos EUA, governadores e prefeitos continuam tomando iniciativas importantes para a redução das emissões de carbono e grandes investidores já começaram a tomar o mesmo rumo. Recentemente, dois gigantes financeiros – Texas Pacific Group e Goldman Sachs – adquiriram a mais “suja” empresa de energia elétrica dos EUA – a TXU Energy, do Texas – com o objetivo de fazer um rápido aumento no seu valor de mercado (valor das ações) através de uma transformação radical baseada nas energias renováveis e na eficência energética. Foi o maior investimento direto (chamado equity nos EUA, isso é, investimento com capital próprio) desse tipo da história: cerca de US$ 50 bilhões. Grupos com o histórico de de só considerarem projetos com altas taxas de retorno não firmariam o compromisso de substituir a impalantação de uma dezena de novas usinas térmicas por energia eólica se não estivessem totalmente confiantes de que o panorama do setor vai mudar totalmente ao final da “administração” Bush.

Lula e Bush poderiam fazer o G-2! Ambos acreditando em tudo o que as suas cabeças lhe dizem. Lula colocaria a culpa nos ricos, Bush dobraria a aposta em sua proposta de que o Brasil sirva de capataz da produção de etanol nos países mais pobres da América Latina. E, de repente, quem sabe, “rola uma graninha” para cessar a destruição da Amazônia.

Essa é uma proposta que já vem sendo discutida há algum tempo. Mas, afinal, quanto vale a floresta amazônica? O valor “de mercado” dos créditos de carbono – definidos pelos países que integram o G-8 -, o valor da madeira em pé, o valor da madeira beneficiada, ou esses valores e mais os lucros cessantes pela não expansão da fronteira agrícola? E qual o valor simbólico de uma negociação desse tipo para o Brasil? Para os adoradores do livre-mercado, que não entendem o que não pode ser quantificado, basta lembrar que, no passado, a Casa Branca mandou um parque nacional sob gestão privada das negociações envolvendo a venda da Paramount para a Sony. No parque vive a águia de cabeça branca ou águia-careca que é símbolo dos EUA.

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Evidentemente, a chanceler alemã e presidente da União Européia Angela Merkel tratou Bush de maneira diplomática ao declarar que as propostas dele eram bem vindas. De toda forma, a União Européia já havia entrado num acordo sobre as suas próprias metas. Angela Merkel ignorou a presença e os comentários de Lula, cuja participação na cúpula do G-8 se deu fundamentalmente no momento da foto.

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O conceito de “valor simbólico” é diferente do de “valor da marca”. Assim, tanto a Microsoft como a Coca-Cola sabem exatamente qual o valor de suas marcas, que está lançado em suas contabilidades. Aqui, nada. No Rio de Janeiro, descarta-se o valor da marca FEEMA – Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente, o mais antigo órgão especificamente de meio ambiente do Brasil, por um capricho.

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Que percentual da “neblina” que cobre a cidade do Rio de Janeiro no inverno se deve à poluição acumulada em condicões desfavoráveis de dispersão atmosférica?

Biocombustíveis e a Mentalidade da Colônia

“Não existe parceria onde o Brasil entra com tudo e os Estados Unidos com nada. Não precisamos deles.”

“O que os Estados Unidos estão fazendo aqui é uma invasão semelhante à do Iraque. Lá, com bombas, e aqui, com dólares.”

“(Eu) disse ao Lula que o Brasil está despreparado para assumir a liderança que tem hoje no setor e, por isso, está perdendo espaço para países como a Alemanha.”

As frases acima são de Bautista Vidal, que teria concebido o Proálcool em 1974, ou pelo menos levado a proposta a Ernesto Geisel, que a aprovou. Não se tratava, então, de promover os biocombustíveis no quadro das mudanças climáticas, mas de conter os impactos do primeiro choque do petróleo sobre a balança comercial brasileira.

Na entrevista concedida a O Globo, tradicional defensor de quaquer um que esteja no poder (exceto quando apoiou o golpe de 64), o físico Bautista Vidal afirma que está articulando a campanha “A Biomassa é Nossa“. Liana Melo, autora da reportagem com tons de entrevista, num texto lúcido, compara esse lema ao grande movimento “O Petróleo é Nosso” que mobilizou o Brasil nas décadas de 40 e 50.

Com essa visita, o Brasil dá as costas aos seus parceiros latino-americanos ou europeus, e se aproxima do que há de mais retrógrado em matéria de energias renováveis.

Outro físico de renome, Rogério Cerqueira Leite, um pouco mais suave, afirma que “a lentidão do governo é compreensível mas indesejável” E, sem causar surpresas, Luiz Pinguelli Rosa, petista de carteirinha, ex-presidente da Eletrobrás, de onde foi defenestrado por Lula sem maiores explicações, e que se encontra, hoje, à frente de uma estatal especialmente criado para abrigar alguns companheiros – a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) -, responsabiliza o setor elétrico pelas inconsistências da matriz energética brasileira, dando um cutucão em dona Dilma Roussef.

Isso tudo na mesma edição na qual se noticia que Lula voltou feliz com mais um bate-papo com George Bush – que tardiamente tenta demonstrar algum interesse pelas energias renováveis mas não abre mão das sobretaxas sobre o etanol brasileiro. Que se dane a Organização Mundial do Comércio – OMC.

Para adoçar a boca dos otários de plantão, fala-se de um estudo do anêmico Núcleo de Assuntos Estratégicos – NAE da presidência da República no qual estariam “mapeados” 79,4 milhões de hectares adicionais para a produção de cana-de-açúcar, boa parte dos quais em Goiás (leia-se, no pouco que resta do Cerrado), em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, no Tocantins, na divisa do Maranhão com o Pará, e até mesmo no sertão da Bahia. Essa área total não é muito diferente da que o Departamento da Agricultura norte-americano (o ministério da Agricultura de lá) há muito já sugere que sejam compradas pelos grandes produtores agrícolas altamente subsidiados dos EUA para plantar cana-de-açúcar e oleaginosas.

Como os brasileiros sempre gostaram dos grandes números, fala-se em 615 novas usinas de álcool até 2025 e, ainda que não esteja dito, há necessidade de infra-estrutura para o escoamento da produção. A ser financiada pelo governo brasileiro, é claro. Com recursos da Nação, é igualmente claro, ainda que serviços básicos de saúde e educação estejam caindo aos pedaços. E que as estradas vicinais que poderiam assegurar o escoamento da produção dos pequenos produtores, os que realmente alimentam o Brasil, estejam como sempre totalmente abandonadas, em particular nas regiões mais pobres.

Esses assuntos já foram tratados em artigos anteriores neste blog e podem ser lidos na área de biocombustíveis. Agora, a confirmação do que foi anteriormente dito faz lembrar a música de Noel Rosa, composta em 1930, com o título “Quem Dá Mais” ou “Leilão do Brasil”, que termina com os seguintes versos:

“Quem dá mais? Quem dá mais de um conto de réis? Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três! Quanto é que vai ganhar o leiloeiro? Que é também brasileiro, E em três lotes Vendeu o Brasil inteiro? Quem dá mais?…..

(A letra completa pode ser lida em http://vagalume.uol.com.br/noel-rosa/quem-da-mais.html).

Mas, justiça seja feita. Não é novo esse leilão do Brasil, como mostra Noel Rosa, bem antigo. FHC aprofundou-o muito durante a época em que foi mandarim da colônia, quando novamente colocou no investimento estrangeiro qualquer esperança de “modernização” do país. Um apagão das esperanças de criar valor verde-amarelo, desenvolvimento endógeno. Lula agora só consuma esse trajeto, numa administração que mais parece a quarta de FHC.

Como bem relembra Bautista Vidal, na década de 70, o então secretário de Estado norte-americano, Henry Kisinger, cinicamente, afirmou que “não admitiremos um outro Japão ao Sul do Equador”. E continuam não admitindo!

A biomassa é nossa? Isso é válido mesmo sabendo que os estrangeiros estão comprando as terras, que o maior benefício social do Proálcool foram os bóias-frias, e que a exportação não gera impostos para pagar nem pelos serviços sociais básicos? Ou será que estamos à beira da situação descrita por Eça de Queiroz em 1871 quando escreveu sobre Portugal?

“Estamos perdidos há muito tempo… O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida, ninguém se respeita, não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O Estado é considerado na sua ação fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. A certeza dessa rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte que o país está perdido. Algum opositor ao atual governo? NÃO!”

Bautista tem razão. O Brasil já perdeu, já anos, a liderança em biocombustíveis para a Alemanha. Mas perdeu, também, qualquer tipo de “vantagem comparativa” que pudesse ter em matéria de energias renováveis, já que não dominou a tecnologia solar, eólica, de turbinas submersas e outras. Como tampouco está sabendo incentivar a tecnologia nacional no campo dos veículos híbridos, que consomem até 50% menos combustíveis. E não tem uma política consistente para compatibilizar a segurança energética com a segurança alimentar.

Então, quem dá mais?