Operação Lava-Jato, Máfia das Empreiteiras e Oportunidade de Mudança de Paradigma

O governo brasileiro já anda querendo colocar panos quentes nas suas aliadas empreiteiras.  Para isso, resolveu misturar as dívidas desses gigantes de incompetência com as dívidas da Petrobras, e anuncia ter “descoberto” que todas juntas e misturadas (a usual geléia geral da enganação)  resultam num potencial rombo no casco dos bancos (só no Brasil) superior a R$ 130 bilhões.  Isso, consideradas apenas as empresas até agora investigadas pela operação Lava Jato, ou seja, ainda não incluída a menina dos olhos do mesmo “governo”, das estatais e dos bancos oficiais: a Odebrecht.

A alegação para os “panos quentes” é a possibilidade de que se declaradas inidôneas e não podendo mais trabalhar para o governo essas cafetinas de contratos com o setor público não paguem os gigantescos empréstimos com os bancos.  Movem-se os pauzinhos para a manutenção do statu quo.  Afinal, os contratos dessas empreiteiras restringem-se ao poder público e às estatais, porque para trabalhar para o setor privado elas não têm as qualificações mínimas de engenharia e competitividade,

O argumento não sobrevive sequer à análise mais superficial.  Em primeiro lugar, porque as dívidas das empreiteiras não têm qualquer relação com as dívidas da Petrobras!  Em segundo, porque ainda não foram estimados os ativos físicos e financeiros dessas empreiteiras – de máquinas pesadas e edificações até participação em hidrelétricas, concessões de estradas e aeroportos, além da área imobiliária em que recentemente se meteram, o que permitiria a sua falência sem maiores problemas para os credores.

De fato, se não puderem trabalhar para o “governo”, a falência é o caminho natural… e o mais saudável.  Os ativos físicos e financeiros – como a receita das concessões – que foram dados aos bancos como garantias – seriam redistribuídos, os equipamentos pesados seriam leiloados e adquiridos por empresas menores que poderiam crescer, os engenheiros encontrariam novas posições e talvez passassem a ter a voz ativa que não têm quando trabalham para essas grandes empreiteiras, o governo e as estatais teriam uma oportunidade de repensar a sua forma de fazer contratos para a realização de obras, as empresas de boa engenharia seriam fortalecidas e outros seriam criadas.

Nos países altamente desenvolvidos os projetos de todos os tamanhos não são elaborados e executados por “empreiteiras”.  Os contratos são feitos com empresas de engenharia e de arquitetura, os projetos são implantados sob a supervisão de cérebros, não de músculos (para não falar da corrupção).  Grandes empresas de engenharia de países sérios não têm ativos físicos – aqui exigidos nas concorrências sob a forma de patrimônio líquido!  Os seus ativos são as qualificações de seus profissionais e a capacidade gerencial para a implantação dos projetos.

Nos países sérios, as empresas de engenharia não ganham em cima do cimento, do vidro e de outros materiais comprados de terceiros, aqui embutidos nos preços e nos infindáveis aditivos aos contratos.  Ganham, sim, sob a forma de bonificação, quando conseguem reduzir os custos e os prazos de implantação dos projetos.  Elas subcontratam empresas especializadas em escavações, estruturas, fornecimento e colocação de acabamentos – da maneira mais eficiente possível para o cliente!  Elas não querem que as obras atrasem e que seja usado mais concreto, mas que sejam entregues nos prazos ou mesmo antes  com a melhor engenharia – o que resulta em benefícios para os clientes.

Nas olimpíadas de Londres, o consórcio de empresas de engenharia e de arquitetura selecionado para fazer a revisão dos projetos e o gerenciamento das obras devolveram aos cofres públicos cerca de US$ 1 bilhão que conseguiu economizar em relação ao orçamento original.  O nome disso é gestão com excelentes qualificações de engenharia e arquitetura!

Um outro fenomenal exemplo de que é possível projetar e implantar os mais complexos projetos dentro do orçamento e do prazo inicialmente previsto foi conduzido pela Shell e pela estatal de petróleo do Qatar, com o nome de Pearl, um exemplo que certamente pode interessar à Petrobras e a quem realmente desejar mudar os paradigmas que permitiram o domínio das obras do poder público por meras empreiteiras, com base num processo de seleção antiquado e altamente vulnerável.

E o “governo” sabe perfeitamente disso, mas continua fazendo cara de paisagem porque não é afeito a inovações, deixa-se levar pela inércia e até mesmo pela apatia.  Mas há que rever o próprio conceito de concorrência pública baseado no tal “patrimônio líquido” como principal forma da pontuação e até mesmo como pré-requisitos para a participação em concorrências públicas.

Esta é uma excelente oportunidade para uma total mudança de paradigmas!

Se a preguiça for demasiada, que tal convidar representantes dos governos e de empresas privadas de países sérios para explicarem aos órgãos de classe – isto é, associações de engenharia e arquitetura, e não à máfia das empreiteiras – dos vários estados e até mesmo às estatais como é feita a seleção das empresas de engenharia lá!  Ou será que alguém imaginaria alguém fazendo contratos de fornecimento de projetos de engenharia e de obras físicas com base na mais do que caduca Lei 8.666 ainda em vigor no Brasil?  Os músculos não podem continuar a comandar os cérebros, os ativos em máquinas e equipamentos não podem prevalecer sobre a excelência da engenharia e a gestão de implantação de projetos!

Aliás, onde estão os engenheiros brasileiros que não se manifestam?

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A corrupção, por incrível que pareça, é só uma parte do problema!  A Polícia Federal e o Judiciário não vão calcular, por exemplo, os lucros cessantes pelos fenomenais atrasos no Complexo Petroquímico de Itaboraí – COMPERJ e na recentemente “meio inaugurada”  Refinaria Abreu e Lima, entre outras.

E, apenas como exemplos, tampouco lhes cabe avaliar a péssima qualidade dos serviços de pavimentação dos sistemas de BRT do Rio de Janeiro, que poucos meses depois das obras já mostravam tantas irregularidades e deterioração das pistas, da mesma forma que as obras, já atrasadíssimas, de “transposição do rio São Francisco”.

Chamem, por favor, auditorias de engenharia, e não apenas escritórios de investigação e advocacia para ver se os protocolos formais foram ou não cumpridos.

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Note-se que na unidade de processamento de gás que recebeu o nome Pearl há um reuso total da água resultante do beneficiamento do gás natural!

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A OAS já começou a virar pó.  E se os credores, inclusive os bancos, executassem não apenas os equipamentos, mas também as concessões para revendê-las a quem sabe fazer as operações sem ter que repassar um jabá para ninguém?  Ninguém pode ter concessões ou participação em concessões de aeroportos, estádios de futebol, estradas e muito mais, sob a formal tutela de um grupo de investimentos financeiros, tudo dentro do mesmo balaio de caranguejos.

 

 

 

 

Erosão, Sedimentação, e Más Práticas de Gestão Ambiental no Complexo Lagunar da Barra da Tijuca – II

Uma parcela dos sedimentos lançados nas lagoas tem origem natural, mas essa é insignificante quando se trata da redução acelerada da lâmina d’água em poucas décadas – é um processo que se dá em escala geológica.

Outra parcela, nada desprezível, é oriunda do lançamento de esgotos brutos, sem tratamento, como ocorreu nas últimas décadas em toda a região da Barra da Tijuca – e continua ocorrendo, por lerdeza da concessionária dos serviços e das autoridades públicas (por favor, sem esse papo furado da responsabilidade dos condomínios, um lero-lero já desgastado que só serve para enganar leigos).  Esta parcela pode ser estimada em 500 kg por metro cúbico de esgoto (usando como referência 500 mg de sólidos sedimentáveis por litro de esgoto).  Apenas para um cálculo hipotético – mas não longe da realidade – se estimarmos que na bacia drenante do complexo lagunar da Barra da Tijuca e adjacências que o esgoto de 200.000 habitantes permanece sem tratamento, teremos 40.000 metros cúbicos de esgotos ou 20 toneladas de sedimentos por dia, ou 7.300 toneladas/ano.  Ano após ano….

Pode-se brincar à vontade com esses números, para menos no que se refere à taxa de sólidos sedimentáveis, ou para mais, no que se refere à população ainda não atendida.  Mas não se pode dizer que os valores são desprezíveis ou que exista um estudo sério sobre as fontes dos sedimentos que contribuem para o assoreamento das lagoas.  E falar em mega-dragagens sem esses estudos não é um indicador de boa gestão ambiental.  Rios de dinheiro em dragagem serão melhores aproveitados em coleta de esgotos.  A segunda prioridade é a identificação das fontes de assoreamento e identificação de soluções.  A dragagem localizada – desde que claramente identificadas as áreas com base nas dinâmicas hídricas, e não em interesses particulares- é a terceira prioridade.

Há, na região, uma outra contribuição significativa para o assoreamento das lagoas (ou lagunas): as péssimas práticas de gestão ambiental das empreiteiras e construtoras em geral.  Como se ver abaixo, os serviços de terraplanagem deixam o solo exposto por dias ou semanas, mesmo em períodos de chuva (quando águas ficam ali servindo de criadouros para mosquitos).

Web.pequena - Más práticas construtivas do ponto de vista da gestão ambiental.versão completa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Imagens similares ocorrem em toda a região, há muito tempo e com frequência, em obras públicas ou privadas.  Não se trata apenas do poder público ter normas para a construção civil, mas também – e sobretudo – da tão decantada responsabilidade sócio-ambiental das empresas.  Pelo menos no caso brasileiro, essa é apenas uma figura de marketing nas páginas das empresas na internet.  Ainda nas proximidades de corpos hídricos como as lagoas, o solo permanece mesmo é exposto durante semanas, com o arraste de sedimentos pelas chuvas.

Web pequena - Solo exposto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Abaixo, ao fundo, a terra estocada para terraplanagem.  Ali permaneceu durante semanas, antes de ser espalhada sobre o solo arenoso.  Quem, examente, cuidou da tal responsabilidade socioambiental?  Os tratoristas?

Web.pequena - Más práticas construtivas do ponto de vista da gestão ambienta.1

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para finalizar, nas proximidades da lagoa, uma garça procura o seu local usual de pouso e reprodução.  Toda essa bagunça em nome da Copa – alô, alô, “padrão FIFA” – e das Olimpíadas…

Mas nada a temer!  Depois as empreiteiras contratam um biólogo de plantão para fazer alguma “recomposição” ou “compensação ambiental”, e a imprensa finge que acredita.

web.pequena.Ave procura seu ninho ou habitat depois da passagem de máquinas pesadas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

São essas as práticas construtivas em toda a região da Barra da Tijuca.   Diretamente, por arraste superficial, ou através das redes de águas pluviais, a quantidade de sedimentos que vai parar no fundo das lagoas com essas movimentações de terra é seguramente imensa.

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Com elevadas taxas de impermeabilização do terreno, as lagoas também são atingidas, não apenas do ponto de vista hidrológico, como também de mais arraste de sedimentos e de contaminantes.  Nos países sérios, as boas práticas de engenharia dispõem de tecnologias para evitar isso tudo há décadas, muitas décadas.  Mas empreiteiras e construtoras brasileiras não são exatamente empresas que se interessam por avanços tecnológicos, ainda mais quando os benefícios não são para os próprios bolsos.

 

 

Ampliação do Quebra-Mar da Barra da Tijuca – Impactos Positivos Imaginários, Hipotéticos e Reais – I

Há cerca de uma década, a Prefeitura do Rio de Janeiro tentou justificar a construção de dois imensos molhes paralelos em frente ao canal do Jardim de Alá – na divisa entre os bairros de Ipanema e Leblon – sob a alegação de que eles assegurariam  maior renovação da água da Lagoa Rodrigo de Freitas.  Na tentativa de justificar essa obra, contratou um instituto de engenharia costeira de Portugal para fazer os estudos sobre a renovação da água em questão, e divulgou-o.  O estudo mostrou que o aumento da renovação da água da lagoa seria desprezível, a imprensa acompanhou o assunto de perto, e o projeto foi esquecido.  Bons tempos em que obras de engenharia desse porte eram precedidas de estudos e os estudos tornados acessíveis ao público!

Agora, fala-se numa grande ampliação do quebra-mar da Barra da Tijuca, que pode ser visto na imagem abaixo.  Trata-se de encontrar um “bota-fora” para as pedras oriundas de um túnel em fase de construção para uma ampliação do metrô, como de um programa de recuperação ambiental do sistema lagunar.

Ao mesmo pretexto – a renovação da água do sistema lagunar – acrescenta-se o marketing vazio da redução das emissões de carbono e da diminuição dos impactos sobre o tráfego de veículos resultantes do transporte dessas pedras para um área mais distante.

Não há sequer indícios de que essa extensão do quebra-mar beneficiará a renovação das águas do sistema lagunar ou diminuirá o processo de sedimentação no trecho da embocadura do canal.

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O questionamento é simples: como e por que o prolongamento do pier – quase triplicando o seu comprimento – aumentaria a entrada de água do mar na lagoa se a largura do atual canal não será aumentada?  Ao contrário, o prolongamento do pier pode até mesmo reduzir a velocidade dessa entrada ao criar uma retenção ou arraste lateral hoje inexistente.

Na verdade, nem mesmo a profundidade do atual canal pode ser aumentada de maneira significativa  já que nele se encontram diversos pilares da Ponte da Joatinga (indicada na imagem).  Alguma dragagem no interior da entrada do canal trará pequenos benefícios para a circulação de água, mas esses sedimentos não são transportados do mar para a lagoa, e sim o contrário, da lagoa para o mar, e voltarão a se depositar na mesma área muito em breve se não forem drasticamente reduzidos os processos erosivos que trazem sedimentos para o interior do complexo lagunar (e sobre isso, ao que parece, não há qualquer reflexão, para não falar de algum estudo sério).

Aliás, por que é mesmo que o prolongamento do pier atual foi estabelecido em 180 metros adicionais?  Numerologia?  Baralho cigano?  Ou estimativa da quantidade de pedras que será retirada durante a escavação do túnel para o metrô naquele trecho?  Algum benefício do prolongamento do atual pier – se existir -, certamente não será para o sistema lagunar.  180 metros de comprimento multiplicados por uma largura média de 15 metros (entre a base, no solo marinho, e a parte superior) e uma (hipotética) profundidade média de 10 metros ao longo do percurso….27.000 metros cúbicos.  É muita pedra jogada fora!

E o impacto sobre a paisagem é, no mínimo, altamente questionável.  Se usado o argumento da criação de um ponto turístico, certamente construir uma pirâmide invertida atrairia muito mais turistas.

Mas se o benefício é para a empreiteira que está fazendo as escavações, o assunto é totalmente outro, e aí essa economia deveria reverter para os cofres públicos.  Porque se for para pagar por uma obra inútil, daí realmente é melhor colocar esses recursos na finalização do sistema de coleta de esgotos cujas obras se arrastam há 30 anos, sem data prevista para a conclusão (além das cíclicas propagandas políticas).  Os esgotos lançados em bruto pela CEDAE constituem-se em fonte de assoreamento – além da poluição, da imundície – do sistema lagunar.  Há outros processos erosivos e de transporte de sedimentos que contribuem para a redução da lâmina d´água das lagoas, mas eles merecem uma análise em separado.

Sobre a proposta injustificada de prolongamento do quebra-mar vale dizer, ainda, que há riscos potenciais para a forma atual das praias em decorrência das mudanças nos padrões das correntes costeiras e do transporte de sedimentos.

Para avaliar essas questões servem – ou deveriam servir – os estudos de impacto ambiental, dos quais não se têm notícias neste caso.

Uma excelente alternativa para o descarte das pedras poderia ser o seu uso na contenção das margens da sistema lagunar onde se fizerem necessárias ou recomendáveis de maneira a assegurar a sua estabilidade e a contenção de processos erosivos.  Mas, cabe há pergunta: existe um estudo das áreas mais vulneráveis à erosão nas margens do sistema lagunar, ou um plano que aumente as possibilidades de acesso das pessoas à orla do mesmo?

Projetos de contenção de processos erosivos e de estabilização das margens de lagos, lagoas, rios e canais são feitos desde sempre nas mais diversas partes do mundo, e uma boa visualização do que foi feito em Lake Gaston, nos EUA, pode ser visualizada numa rápida apresentação de slides no link. Outras iniciativa no gênero pode ser vistas em vídeos como o que pode ser visualizado aqui  e certamente podem ser encontrados melhores usos para um material tão nobre quanto a pedra numa área da cidade em que ela é escassa (ao menos para extração).

Além disso, até mesmo para uso como brita na construção civil seria um uso mais nobre dessa pedra toda, em particular num período de grandes obras na região, tanto públicas quanto privadas.  Alternativas menos monumentais, sem o estilo “Cidade das Artes”, mas certamente úteis.

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Até mesmo no Facebook já se encontra uma página com imagens do uso de pedras para a restauração do Lago Minnetonka.  Nada como uma boa engenharia – inclusive econômica – para encontrar boas soluções para a restauração ambiental com o uso de recursos naturais.