Ampliação do Quebra-Mar da Barra da Tijuca – Impactos Positivos Imaginários, Hipotéticos e Reais – I

Há cerca de uma década, a Prefeitura do Rio de Janeiro tentou justificar a construção de dois imensos molhes paralelos em frente ao canal do Jardim de Alá – na divisa entre os bairros de Ipanema e Leblon – sob a alegação de que eles assegurariam  maior renovação da água da Lagoa Rodrigo de Freitas.  Na tentativa de justificar essa obra, contratou um instituto de engenharia costeira de Portugal para fazer os estudos sobre a renovação da água em questão, e divulgou-o.  O estudo mostrou que o aumento da renovação da água da lagoa seria desprezível, a imprensa acompanhou o assunto de perto, e o projeto foi esquecido.  Bons tempos em que obras de engenharia desse porte eram precedidas de estudos e os estudos tornados acessíveis ao público!

Agora, fala-se numa grande ampliação do quebra-mar da Barra da Tijuca, que pode ser visto na imagem abaixo.  Trata-se de encontrar um “bota-fora” para as pedras oriundas de um túnel em fase de construção para uma ampliação do metrô, como de um programa de recuperação ambiental do sistema lagunar.

Ao mesmo pretexto – a renovação da água do sistema lagunar – acrescenta-se o marketing vazio da redução das emissões de carbono e da diminuição dos impactos sobre o tráfego de veículos resultantes do transporte dessas pedras para um área mais distante.

Não há sequer indícios de que essa extensão do quebra-mar beneficiará a renovação das águas do sistema lagunar ou diminuirá o processo de sedimentação no trecho da embocadura do canal.

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O questionamento é simples: como e por que o prolongamento do pier – quase triplicando o seu comprimento – aumentaria a entrada de água do mar na lagoa se a largura do atual canal não será aumentada?  Ao contrário, o prolongamento do pier pode até mesmo reduzir a velocidade dessa entrada ao criar uma retenção ou arraste lateral hoje inexistente.

Na verdade, nem mesmo a profundidade do atual canal pode ser aumentada de maneira significativa  já que nele se encontram diversos pilares da Ponte da Joatinga (indicada na imagem).  Alguma dragagem no interior da entrada do canal trará pequenos benefícios para a circulação de água, mas esses sedimentos não são transportados do mar para a lagoa, e sim o contrário, da lagoa para o mar, e voltarão a se depositar na mesma área muito em breve se não forem drasticamente reduzidos os processos erosivos que trazem sedimentos para o interior do complexo lagunar (e sobre isso, ao que parece, não há qualquer reflexão, para não falar de algum estudo sério).

Aliás, por que é mesmo que o prolongamento do pier atual foi estabelecido em 180 metros adicionais?  Numerologia?  Baralho cigano?  Ou estimativa da quantidade de pedras que será retirada durante a escavação do túnel para o metrô naquele trecho?  Algum benefício do prolongamento do atual pier – se existir -, certamente não será para o sistema lagunar.  180 metros de comprimento multiplicados por uma largura média de 15 metros (entre a base, no solo marinho, e a parte superior) e uma (hipotética) profundidade média de 10 metros ao longo do percurso….27.000 metros cúbicos.  É muita pedra jogada fora!

E o impacto sobre a paisagem é, no mínimo, altamente questionável.  Se usado o argumento da criação de um ponto turístico, certamente construir uma pirâmide invertida atrairia muito mais turistas.

Mas se o benefício é para a empreiteira que está fazendo as escavações, o assunto é totalmente outro, e aí essa economia deveria reverter para os cofres públicos.  Porque se for para pagar por uma obra inútil, daí realmente é melhor colocar esses recursos na finalização do sistema de coleta de esgotos cujas obras se arrastam há 30 anos, sem data prevista para a conclusão (além das cíclicas propagandas políticas).  Os esgotos lançados em bruto pela CEDAE constituem-se em fonte de assoreamento – além da poluição, da imundície – do sistema lagunar.  Há outros processos erosivos e de transporte de sedimentos que contribuem para a redução da lâmina d´água das lagoas, mas eles merecem uma análise em separado.

Sobre a proposta injustificada de prolongamento do quebra-mar vale dizer, ainda, que há riscos potenciais para a forma atual das praias em decorrência das mudanças nos padrões das correntes costeiras e do transporte de sedimentos.

Para avaliar essas questões servem – ou deveriam servir – os estudos de impacto ambiental, dos quais não se têm notícias neste caso.

Uma excelente alternativa para o descarte das pedras poderia ser o seu uso na contenção das margens da sistema lagunar onde se fizerem necessárias ou recomendáveis de maneira a assegurar a sua estabilidade e a contenção de processos erosivos.  Mas, cabe há pergunta: existe um estudo das áreas mais vulneráveis à erosão nas margens do sistema lagunar, ou um plano que aumente as possibilidades de acesso das pessoas à orla do mesmo?

Projetos de contenção de processos erosivos e de estabilização das margens de lagos, lagoas, rios e canais são feitos desde sempre nas mais diversas partes do mundo, e uma boa visualização do que foi feito em Lake Gaston, nos EUA, pode ser visualizada numa rápida apresentação de slides no link. Outras iniciativa no gênero pode ser vistas em vídeos como o que pode ser visualizado aqui  e certamente podem ser encontrados melhores usos para um material tão nobre quanto a pedra numa área da cidade em que ela é escassa (ao menos para extração).

Além disso, até mesmo para uso como brita na construção civil seria um uso mais nobre dessa pedra toda, em particular num período de grandes obras na região, tanto públicas quanto privadas.  Alternativas menos monumentais, sem o estilo “Cidade das Artes”, mas certamente úteis.

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Até mesmo no Facebook já se encontra uma página com imagens do uso de pedras para a restauração do Lago Minnetonka.  Nada como uma boa engenharia – inclusive econômica – para encontrar boas soluções para a restauração ambiental com o uso de recursos naturais.