Crise Econômica, Consumo e Sociedades de Transição

E se a atual crise econômico-financeira européia estiver sendo causada por uma mudança de paradigma civilizatório, isto é, se o consumo tiver perdido a sua força como caminho para a satisfação pessoal?  Neste caso, a crise não seria apenas financeira, mas sim uma crise que “veio para ficar” até o surgimento de um novo tipo de sociedade.

Difícil de entender?

O consumo conspícuo, já se sabe, anda em baixa.   Essa é a denominação do tipo de consumo destinado a exibir riqueza como forma de melhorar pelo menos na aparência do status social dos indivíduos ou mesmo das instituições.  Relógios de marcas famosas, roupas de grife, tudo que pudesse ser visível e que agora pode ser replicado.  O mesmo vale para a moda de jatos executivos que serviam mais para influenciar outros executivos e subornar políticos do terceiro mundo.

A expressão – consumo conspícuo –  foi introduzida por Thorstein Veblen em 1899, com a publicação de A Teoria da Classe Ociosa – Um Estudo Econômico Sobre a Evolução das Instituições.

Mas também o consumismo puro e simples parece estar perdendo força.  Uma indicação de que isso está acontecendo foi dada pelo presidente da Confederação da Indústria da Inglaterra em seu discurso de posse em janeiro de 2011, quando afirmou algo como: “o valor marginal da hora extra de trabalho já não trás, para os britânicos, uma felicidade marginal equivalente”.  Em palavras simples, o cidadão médio já não quer fazer horas extras para trocar de automóvel todos os anos.

Talvez o europeu ocidental em geral  já esteja se importando muito pouco com o consumo como forma de assegurar o aumento da felicidade.  Ou seja, as coisas passam gradativamente a valer pela utilidade real que elas possam ter, não importando a marca ou o “ultimo lançamento”.  Nesse caso, a sociedade amadureceu!

E talvez isso também esteja acontecendo, em maior ou menor grau, em diferentes partes dos EUA e Canadá.

Galbraith descreveu de maneira impecável a sociedade norte-americana do pós-guerra: a demanda de bens e serviços nos EUA não é  criada pelo consumidor; as demandas reais – alimentos, roupas e abrigo – já tinham sido satisfeitas para a vasta maioria dos americanos; as novas demandas eram criadas pelos anunciantes e pela “máquina de criação de demanda de consumo” que se beneficia das despesas crescentes do consumidor.

De fato, no auge do consumismo norte-americano, era comum ver uma família totalmente hipnotizada pela ideia de ter o mesmo modelo recém lançado de geladeira que havia sido adquirido pelos vizinhos.  Era simples, para os fabricantes, mudar o desenho, colocar uma embalagem de aço escovado, e pronto, desencadeava-se uma nova onda de consumo.

Hoje, uma família típica de classe média norte-americana cada vez mais utiliza os mesmos eletro-domésticos até o fim de suas úteis ou até que uma tecnologia significativamente diferente seja introduzida.

A sociedade parece estar amadurecendo.

Se os consumidores se cansam, caem as taxas de crescimento do consumo e, portanto, de emprego.

Mas, e daí, se as pessoas preferirem consumir menos?  O máximo que pode acontecer é um período de ajuste da economia aos novos paradigmas.

Para evitar o desemprego nesse período de transição, a Europa resolveu investir em infraestrutura e os EUA em saúde pública (ainda que esteja precisando de renovar a sua infraestrutura em diversos campos).

O crescimento do consumo tradicional – eletro-domésticos, em particular –  continua acelerado apenas nos países emergentes, mas esse é outro assunto.  O consumismo tradicional em países muito avançados têm se restringido aos artigos de alta tecnologia, que demandam poucos materiais – ainda que alguns materiais escassos – e incorporam maior parcela de serviços.

Assim, esses países têm maiores condições de fazer uma transição para economias de baixas taxas de crescimento do consumo de bens privados – por oposição aos bens públicos, como infraestrutura de transporte, bem como de educação e de saúde pública.

O projeto de nação do Brasil – se é que tem algum além da exportação de matérias-primas e produtos agrícolas não beneficiados – permanece uma incógnita.  Seja como for, o Brasil continuará consumindo mais e mais.  E isso sem ter a capacidade de geração de tecnologia ou sequer de projetos articulados de infra-estrutura de qualidade*.  O país conseguiu chegar a uma certa decadência que caracteriza o consumismo – em particular quando consome bens que não têm a tecnologia para produzir – sem passar pelo apogeu da infraestrutura e do atendimento de necessidades básicas como habitação e educação.

Essa é uma boa oportunidade para a reflexão e para o debate, já que a tal da “crise” na Europa e nos EUA parece ser um ponto de inflexão do “paradigma civilizatório” do consumismo, cujas repercussões no Brasil serão inevitáveis.

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O Brasil não tem a capacidade sistêmica de gerar projetos de infra-estrutura de qualidade porque o setor está totalmente controlado por empreiteiras que estão muito mais preocupadas com a “engenharia dos contratos” do que com o estado de arte na engenharia.  Para as grandes empreiteiras, a engenharia é terceirizada, é uma espécie de acessório da obra.  Isso não acontece nos países sérios.

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As ONGs ditas ambientalistas poderiam trabalhar na conscientização sobre os excessos do consumo e sobre a obsolescência programada dos produtos.  Mas aí perderiam os seus patrocinadores.  Então, preferem a farsa da “madeira certificada” e os navios de protesto com nomes destinados ao marketing de si próprias.